Imagina a loucura de você dar o download num jogo e descobrir que a jornada só termina daqui a mais de um ano real. Pois é, a gente tá falando de The Longing, uma pérola bizarra da Studio Seufz que decide testar a sanidade e a paciência de qualquer gamer. Não é aquele hype de combate frenético ou missões de 'vá ali e mate dez javalis' que a gente tá acostumado nas Notícias de lançamentos; aqui, a pegada é o puro suco do tédio contemplativo.
Nesse cenário surreal, você controla o Shade, um goblinzinho com olhos arregalados que serve a um rei subterrâneo. O problema é que o monarca resolveu tirar um cochilo regenerativo que dura exatamente 400 dias no calendário do mundo real. A única função do Shade — e a sua, consequentemente — é ser um despertador vivo e avisar o rei quando o tempo acabar. É basicamente um simulador de espera que roda em segundo plano no seu PC enquanto você vive sua vida.

O gameplay é punitivo no sentido de ser absurdamente lento. Você passa boa parte do tempo movendo o Shade por cavernas desenhadas à mão em um passo que faria uma tartaruga com artrite parecer um velocista. Para não morrer de tédio total, a Studio Seufz colocou algumas atividades, como decorar a casinha do goblin ou desenhar com pedaços de carvão que você encontra explorando. Se você for do tipo intelectual ou estiver realmente sem nada para fazer, pode até ler o texto completo de Moby Dick dentro do jogo, além de outras obras densas como Assim Falou Zarathustra.
A progressão aqui não depende de skill, reflexos ou de fazer grinding infinito. Tudo gira em torno do tempo real. Quer que um pedaço de musgo cresça para você conseguir atravessar uma área? Pois prepare-se para esperar duas semanas inteiras. Precisa de cogumelos para algum objetivo? Pode levar um mês para eles amadurecerem. Até as estalactites caem seguindo o cronograma do jogo, abrindo novos caminhos, mas tunnels podem desmoronar do nada e fechar acessos para sempre, então é bom não vacilar nas explorações.

A recepção na Steam é aquele clássico caso de "ou você ama ou você odeia". O jogo ostenta um status de Very Positive, mas tem gente que chama The Longing de "Animal Crossing: Edição Depressiva". Tem jogador tão obcecado que, se esquece do jogo por um tempo e sente que "abandonou" o Shade, reseta o contador de 400 dias do zero só para aliviar a culpa. É um nível de comprometimento que beira o masoquismo, mas que mostra como a atmosfera do jogo consegue prender a galera.
O sistema "idle" funciona exatamente como promete: você manda o Shade fazer uma tarefa, fecha o jogo e volta daqui a um dia, uma semana ou um mês para ver o resultado. Se você deixar o jogo aberto enquanto faz outras coisas, o goblin senta no chão da caverna e fica te fazendo companhia, resmungando sozinho sobre a água que pinga no teto. Essa interação cria uma intimidade estranha, onde você para de ver o jogo como um app chato e começa a olhar para o Shade como um amigo que está dividindo a solidão com você.

Do ponto de vista artístico, a obra é quase um experimento social, sendo comparada à peça 4'33" de John Cage, onde um pianista fica em silêncio. Em plena era de TikToks de 15 segundos, The Longing é um soco no estômago da nossa capacidade de atenção. Ele nos força a encarar o vazio e a espera, transformando o tédio em mecânica central. Não há mapa, não há inventário tradicional e o Shade nem precisa de comida ou água, removendo qualquer pressão de sobrevivência para que você foque apenas na passagem do tempo.
Para quem curte esse tipo de experiência, existem múltiplos finais, alguns bem ambíguos que não explicam absolutamente nada do que aconteceu. A grande pergunta é se você terá a disciplina de acordar o rei no prazo correto ou se vai se perder nas distrações do subterrâneo. É um jogo que não tenta te agradar com recompensas rápidas, mas que oferece uma reflexão profunda sobre como a gente lida com a espera no nosso dia a dia.

No fim das contas, The Longing é um título para um nicho muito específico. Se você busca ação, esse jogo vai flopar miseravelmente na sua biblioteca. Mas se você quer algo que desafie a sua noção de "entretenimento" e te faça sentir a melancolia de um goblin solitário, vale cada segundo (ou dia). É a prova de que, às vezes, o videogame pode ser mais sobre a ausência de ação do que sobre a própria gameplay.
Meu veredito? É uma obra corajosa. Enquanto a indústria corre para entregar mapas gigantescos e loops de gameplay viciantes, a Studio Seufz decidiu criar um jogo que te pede para... Não fazer quase nada. É disruptivo, é estranho e é genuinamente intrigante. Se você tem um PC encostado e quer testar sua paciência, esse é o caminho.




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