Sabe aquela sensação de quando uma obra decide expandir a sua lore de um jeito tão absurdo que você simplesmente precisa parar e aplaudir? Pois é, os fãs de animação geek sabem exatamente do que estou falando quando o assunto é o passado místico desse universo criado pela Nickelodeon. Quem acompanhou a jornada da Avatar Korra na 2ª temporada em outubro de 2013 foi pego totalmente de surpresa por uma narrativa que mudou para sempre a nossa visão sobre o balanço espiritual desse mundo.
Afinal de contas, desde os tempos áureos de Avatar: The Last Airbender com o jovem Aang, a gente aceitava o ciclo da reencarnação quase como uma regra mágica genérica. O escolhido dominava os quatro elementos e pronto, fim de papo. Mas a Nickelodeon resolveu chutar o balde e nos entregar uma aula de narrativa que ecoa até hoje entre os espectadores mais dedicados.

Tudo começa quando a nossa protagonista, após uma treta daquelas no mar do Polo Sul que abriu os portais espirituais e gerou uma guerra civil nos Water Tribes, acaba sendo engolida por um dark spirit e sofre de amnésia total. É aí que a parada fica insana, porque sem conseguir se conectar com suas vidas passadas como Aang, Roku, Kyoshi e Kuruk, a heroína precisa buscar respostas bem na raiz de tudo.
Voltando dez mil anos no tempo através de um flashback magistral, conhecemos o jovem Wan, um verdadeiro trapaceiro com uma lábia digna de Robin Hood que vivia nas costas das lion turtles. Nessa época antiga, a humanidade morava acovardada dentro de cidades protegidas por esses seres gigantescos, vendo os espíritos selvagens como verdadeiros monstros perigosos que queriam devorar qualquer alma perdida.

O grande barato desse arco duplo chamado Beginnings é ver como a empatia de Wan acaba colocando o destino do mundo em risco. Ao tentar separar uma briga entre dois seres espirituais, ele acaba soltando Vaatu, o espírito das trevas e do caos, enfraquecendo Raava, a personificação da luz e da paz. É o famoso caso da boa intenção que gera um hype desastroso para o futuro da humanidade.
Para consertar a própria cagada, Wan precisa correr atrás de dominar todos os quatro elementos emprestados pelas lion turtles e apelar para a fusão permanente com Raava durante a Harmonic Convergence. Essa escolha altruísta e desesperada é o exato momento em que nasce o primeiro Avatar, unindo luz e escuridão em um ciclo eterno que moldou todas as gerações futuras.

Olhando em retrospecto, essa ousadia criativa dos criadores Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko foi um verdadeiro marco na televisão. Enquanto muita série por aí prefere ficar na zona de conforto e entregar mais do mesmo para agradar o fandom, essa obra teve a coragem de explorar a filosofia por trás do poder supremo.
É esse tipo de ousadia narrativa que faz falta em muitas produções atuais, mostrando que expansão de universo bem feita exige risco criativo. A forma como eles conectaram a jornada de Korra com as origens ancestrais é simplesmente impecável e merece ser lembrada por qualquer fã de boas histórias.

Portanto, se você ainda não reassistiu a esses episódios clássicos depois de todo esse tempo, corre lá para conferir essa obra-prima da animação moderna. A profundidade dessa lore continua dando uma surra em muito roteiro de super-produção atual que custa os olhos da cara.
O legado deixado por Wan e continuado por Korra prova que a animação ocidental não deve absolutamente nada para produções cinematográficas gigantescas. Afinal, uma boa história sempre vai sobreviver ao teste do tempo quando é feita com alma e respeito ao público.




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