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Ray Gunn Entrega a Animação Adulta Revolucionária dos Sonhos de Brad Bird

Quem acompanha a indústria da animação e do entretenimento sabe muito bem que Brad Bird sempre foi uma voz dissonante em Hollywood, brigando contra o clichê limitante de que desenho animado é coisa exclusiva de criança. O diretor lendário por trás de Os Incríveis, Ratatouille e da obra-prima cult O Gigante de Ferro passou quase três décadas matutando um projeto pessoal que parecia condenado ao limbo eterno. Nós aqui da redação acompanhamos esse drama há anos e, finalmente, a espera acabou: Ray Gunn estreou no catálogo da Netflix bancado com a estrutura parruda da Skydance Animation, reunindo o cineasta com John Lasseter em uma produção colossal.

O resultado final não tenta amaciar o público infantil nem por um segundo, fugindo completamente das fórmulas pasteurizadas que dominam o streaming atualmente. O longa-metragem abraça sem qualquer pudor o clássico filme noir com pitadas densas de ficção científica retrofuturista, lembrando produções lendárias do cinema clássico como In a Lonely Place e The Big Knife. Trata-se de uma verdadeira declaração de amor ao potencial narrativo das grandes animações, criando um contraste fascinante entre estética cartunesca de ponta e uma atmosfera cínica, pesada e cheia de marcas de cigarro, álcool e investigações criminais no submundo.

Ray Gunn - Imagem Oficial

Na trama central, acompanhamos o detetive particular Ray Gunn, dublado com maestria e cinismo afiado por Sam Rockwell, que perambula por uma metrópole vertical sufocante pilotando hoverbikes enferrujadas e se metendo em tiroteios de raios laser. A cidade é um espetáculo à parte, misturando arquitetura art déco gigantesca com tecnologia futurista arcaica, onde humanos e alienígenas compartilham uma convivência turbulenta e repleta de segredos sujos. Quando uma investigação de homicídio envolvendo a estonteante cantora Venus Nova, vivida pela diva Scarlett Johansson, cai no colo do nosso detetive, o roteiro desenrola uma espiral de intrigas que faria Humphrey Bogart se sentir em casa.

O visual construído pela Skydance Animation é inacreditável e não deve absolutamente nada ao padrão de excelência visual que os fãs de Notícias sobre computação gráfica aprenderam a idolatrar nos tempos de ouro da Pixar. Cada plano parece uma pintura conceitual em altíssima resolução ganhando vida na tela, com uma iluminação volumétrica exuberante e cenários repletos de detalhes minuciosos. A sensação de profundidade de campo e a fluidez das cenas de perseguição aérea entregam o mesmo dinamismo vertiginoso que os entusiastas de jogos no PC buscam em taxas de quadros absurdamente altas de 60fps.

Ray Gunn - Imagem Oficial

Para equilibrar o cinismo casca-grossa do protagonista, o filme brilha intensamente na dinâmica entre Ray e seu parceiro alienígena de um olho só, Eye-Ra, que ganha a voz rouca e inconfundível de Tom Waits. O monóculo verde funciona como uma câmera espiã ambulante para o detetive, gerando tiradas impagáveis e servindo como a âncora moral mais lúcida de toda a investigação. Waits rouba completamente todas as cenas em que aparece, equilibrando o cansaço típico do investigador à beira da aposentadoria com um senso de humor ranzinza que lembra os melhores momentos dos coadjuvantes durões do cinema clássico policial.

Outro elemento espetacular da narrativa é como o roteiro constrói vilões asquerosos e memoráveis, liderados pelo gângster alienígena Slugsy, dublado pelo comediante Matthew Berry. Em uma das sequências de ação mais inspiradas do longa, um interrogatório descamba para uma confusão inacreditável quando pistolas de embaralhamento molecular fundem capangas em uma maçaroca grotesca de membros e tentáculos. A pancadaria se estende por corredores apertados e turbo-elevadores vertiginosos, emulando a insanidade coreografada dos velhos desenhos de Bugs Bunny colidindo com a brutalidade crua de um suspense policial dos anos quarenta.

Ray Gunn - Imagem Oficial

Além de entregar pancadaria e comédia física impecáveis, Brad Bird aproveita a densidade do universo para cuspir críticas sociais ácidas e surpreendentemente atuais sobre o nosso próprio mundo. O filme debate abertamente o avanço descontrolado da inteligência artificial sobre a arte autêntica, a ganância de corporações que agem exatamente como facções criminosas organizadas e as tensões raciais disfarçadas de divisão de espécies entre humanos e extraterrestres. É impressionante ver como o diretor não tem medo de incomodar, expondo a precariedade de um protagonista que se arrebenta para salvar inocentes, mas mal consegue pagar o aluguel do seu escritório decadente.

Mesmo com tanta bagagem pesada e temática urbana, a produção reserva um espaço surpreendente para o romance clássico e dramático. O fascínio que cresce entre o detetive e a misteriosa Venus Nova desafia os clichês fáceis de femme fatale traiçoeira, revelando camadas de vulnerabilidade que dão peso real às consequências de cada tiroteio. A trilha sonora composta pelo genial Michael Giacchino eleva cada diálogo romântico e cada emboscada com trompetes melancólicos e cordas orquestrais arrebatadoras, provando que a produção nunca trata sua própria premissa como paródia ou piada descartável.

Ray Gunn - Imagem Oficial

É verdade que o ritmo sofre pequenos tropeços no miolo do terceiro ato por conta da imensa quantidade de subtramas que o diretor tentou condensar em um único longa. Algumas revelações sobre a conspiração corporativa acontecem rápido demais, e a carga dramática acaba não atingindo o pico emocional devastador que vimos no passado com o sacrifício de O Gigante de Ferro. No entanto, quando colocamos na balança o espetáculo visual ininterrupto e a coragem autoral de bancar um thriller adulto desse calibre, qualquer deslize de montagem vira mero detalhe diante da grandeza da obra.

No frigir dos ovos, a obra se consagra como uma vitória maiúscula para quem estava cansado da mesmice dos blockbusters infantis genéricos que lotam os serviços de streaming. Brad Bird provou novamente que é um dos maiores mestres vivos da animação mundial, mostrando que o gênero comporta violência com estilo, melancolia legítima e debates filosóficos pesados sem abrir mão da diversão. Se o mercado entender o recado deixado por este filme, podemos estar diante de uma nova era de ouro para animações adultas ocidentais de grande orçamento.

Ray Gunn
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