A febre dos MMOs voltou a consumir meus dias de forma impiedosa logo no momento em que coloquei os pés na fase de testes de World of Warcraft: Forever. O problema é que meu cérebro já abriga aquela velha e cansativa dependência de passar dezenas de horas semanais em Final Fantasy 14, tratando a aventura da Square Enix como se fosse um segundo expediente na minha rotina. Meu corpo virou um verdadeiro templo de gerenciamento de tempo catastrófico, onde o PC e os mundos virtuais disputam cada segundo livre do meu dia a dia agitado.
Minha única experiência prévia com o icônico título da Blizzard Entertainment resumia-se a um Paladino esquecido no nível 13 que criei por puro impulso durante o lançamento de Battle for Azeroth, quase uma década atrás. Contudo, desta vez a experiência está fincando raízes profundas na minha rotina de jogatina na Steam e nos launchers dedicados. Estou absolutamente fascinado pela pegada mais crua, nostálgica e pé no chão que essa versão reformulada entrega, misturando a velha guarda com pitadas modernas essenciais para quem não tem óculos com lentes cor-de-rosa.

Apesar de todas as qualidades inegáveis do design de mundo, há um elemento específico que continua me causando estranheza constante: a forma como a música é tratada. Não estou dizendo que o trabalho dos compositores seja ruim, longe disso, pois fiquei completamente hipnotizado pelas melodias soturnas e opressoras do overworld de Durotar, além do impacto grandioso que senti ao cruzar os portões de Orgrimmar pela primeira vez com meu Troll Shaman. O verdadeiro X da questão não é a qualidade das composições, mas sim a frequência assustadoramente baixa com que conseguimos escutar essas obras-primas durante a jogatina.
O aclamado World of Warcraft tem o hábito peculiar de nos fazer passar por longos e quase desconfortáveis períodos de silêncio absoluto, confiando exclusivamente nos barulhos ambientes para ditar o ritmo da exploração. Os passos estalados dos orcs na terra seca, o uivo cortante do vento e o guincho distante de uma águia solitária formam a paisagem sonora padrão que substitui a trilha orquestrada. Estou aos poucos me acostumando com essa escolha deliberada de design de áudio, mas é impossível não sentir falta da estrutura sonora meticulosamente temática que encontramos em outros gigantes do gênero disponíveis no mercado atual.

Enquanto vagamos pelos servidores, títulos como o fantástico Final Fantasy XIV parecem ter uma faixa musical customizada para absolutamente qualquer situação imaginável dentro do universo online. Temos temas específicos para o período diurno em cada zona, faixas totalmente inéditas para a noite, além de trilhas exclusivas para dungeons, sub-chefes e confrontos apoteóticos contra os grandes chefões do final de cada expansão. Apenas para ilustrar o nível de exagero da equipe de Masayoshi Soken, a série de raids atual conta com uma música totalmente inédita para cada combate individual, coroando os chefes finais com dois temas próprios.
Essa enxurrada de mais de uma dezena de músicas exclusivas para uma única sequência de raids acaba mal criando o jogador, acostumando o nosso cérebro a esperar um estímulo auditivo constante que o clássico World of Warcraft simplesmente se recusa a entregar. Bater em um inimigo comum na natureza e continuar ouvindo a mesma calmaria pacífica do overworld, sem nenhuma faixa de combate frenética engatando instantaneamente, parece quase errado para quem veio de outras escolas de design de MMO. É um choque cultural sonoro que exige um período considerável de adaptação mental.

No fim das contas, consigo respeitar a decisão da desenvolvedora de seguir por um caminho minimalista que valoriza o silêncio e o peso do ambiente natural, mas eu certamente não recusaria a chance de ouvir muito mais do talento absurdo desses músicos. O pouco que escutei até agora cravou um padrão de excelência altíssimo, garantindo que em breve meu cérebro crie aquela memória afetiva instantânea ao escutar os primeiros acordes em Durotar. As mensagens clássicas de erro na tela dizendo que o feitiço está fora de alcance ou que falta mana certamente vão ecoar na minha cabeça por centenas de horas.
A jornada por Azeroth prova que antigas filosofias de design ainda têm muito a ensinar para a indústria moderna de jogos eletrônicos, mesmo que isso signifique abrir mão de confortos contemporâneos aos quais fomos mal habituados ao longo dos anos. A imersão construída através da ausência de som constante acaba criando uma identidade única que diferencia essa experiência de qualquer outro concorrente direto na PlayStation, Xbox ou nos computadores de última geração.

A adaptação a essas novas regras não escrita dita o ritmo do sucesso ou fracasso da nossa diversão a longo prazo dentro do vasto universo online. Ainda não se sabe se a nostalgia será forte o suficiente para manter os jogadores presos a esse silêncio contemplativo ou se a falta de adrenalina musical fará o público retornar aos seus lares sonoros habituais.




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