Sempre fui aquele tipo de jogador purista que torcia o nariz para a ideia de jogar Deus Ex longe daquela famosa perspectiva de primeira pessoa. Afinal de contas, os clássicos immersive sims desenvolvidos pela lendária Ion Storm sempre construíram sua identidade justamente em cima dessa imersão visceral, onde enxergamos o mundo cyberpunk através dos olhos biônicos do protagonista JC Denton. O problema é que a curiosidade falou mais alto depois que eu dei uma conferida em uma série de vídeos postados recentemente pelo criador dan2091, mostrando um projeto ambicioso que mexe totalmente com as estruturas tradicionais da aventura.
O que temos em mãos não é apenas uma simples alteração de câmera para satisfazer quem prefere ver o personagem correndo pelos cenários decadentes. O modder foi muito além e implementou um sistema robusto que permite a JC Denton trocar de roupas dinamicamente, aproveitando ao máximo o fato de finalmente estarmos vendo o nosso herói em ação na tela do PC. Além disso, há animações totalmente customizadas para escalar escadas e, para completar o pacote, um sistema inédito de dual-wielding que funciona perfeitamente independentemente da perspectiva escolhida pelo jogador durante a gameplay.

Mas o ponto alto de todo esse trabalho artesanal é ver como a movimentação ganhou uma agilidade absurda, transformando o ritmo pacato do jogo em algo que lembra imediatamente os aclamados clássicos da Remedy, como os inesquecíveis Max Payne 1 e Max Payne 2. Ver o personagem executando cambalhotas e o famoso shoot-dodging enquanto descarrega balas com suas duas pistolas é um colírio para os olhos de qualquer fã veterano de tiro em terceira pessoa. É quase mágico perceber como essas animações encaixam perfeitamente na atmosfera suja e cinzenta da lore, provando que o design visual dos anos 2000 ainda tem muito fôlego para surpresas.
A franquia nunca foi totalmente alheia a mudanças de ponto de vista ao longo de sua história gloriosa. Tanto Human Revolution quanto Mankind Divided já flertavam com essa hibridização, alternando a visão para a terceira pessoa sempre que o jogador decidia se abrigar atrás de caixotes ou executar finalizações brutais nos inimigos. Até mesmo o título original lançado pela Eidos Interactive fazia uso de cortes cinematográficos em diálogos, mostrando que os desenvolvedores sempre quiseram explorar um escopo visual mais dinâmico para contar suas conspirações corporativas.

A grande questão que fica na cabeça da comunidade é o quanto daríamos para ter um novo capítulo oficial da série rodando nas plataformas atuais com essa qualidade e liberdade criativa. Infelizmente, a realidade da indústria atual costuma ser cruel com as nossas expectativas de fã apaixonado. Relatórios recentes apontam que um novo jogo que estava sendo gerido pela Eidos Montreal acabou sendo cancelado nos bastidores pela Embracer Group, enquanto o talentoso dublador Elias Toufexis, voz marcante de Adam Jensen, já confirmou publicamente que não devemos ver o retorno do herói tão cedo.
Diante desse cenário desolador em relação ao futuro oficial da propriedade intelectual, nos restam os esforços hercúleos dos modders e da comunidade de entusiastas que mantêm a chama viva através de projetos independentes impressionantes. Ver a paixão genuína aplicada em dar uma nova roupagem a um dos pilares fundamentais do entretenimento digital nos lembra exatamente o motivo de continuarmos amando este ecossistema.

Mesmo que os executivos das grandes publishers pareçam ignorar o valor comercial de marcas clássicas, o talento dos desenvolvedores independentes continua provando que a criatividade da nossa comunidade jamais será soterrada por cancelamentos corporativos frios e calculistas.
Seja jogando com a câmera clássica ou arriscando essa nova experiência cheia de adrenalina e acrobacias, o legado deixado pelo universo criado por Warren Spector continua absolutamente intocável e merecedor de toda a nossa admiração e respeito.





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