Quem acompanhou a saga da Relic Entertainment nos últimos anos sabe muito bem que o gênero de estratégia em tempo real sofreu altos e baixos brutais, deixando a comunidade com o pé atrás após tropeços históricos. Quando anunciaram Warhammer 40,000: Dawn of War 4, confesso que meu hype veio acompanhado daquele medo clássico de ver uma franquia lendária ser simplificada demais para agradar o público de massa. No entanto, tive a oportunidade de passar duas semanas testando duas das quatro campanhas principais do título — focadas nos brutais orks e no enigmático Adeptus Mechanicus —, além da introdução com o Astra Militarum, e o resultado simplesmente calou minha boca da melhor forma possível.
Todo veterano de RTS sabe que o coração de um jogo desse estilo está na sua campanha solo, pois é ela que fisga o jogador antes de jogá-lo aos lobos do multiplayer competitivo na Steam. A boa notícia é que a Deep Silver entendeu o recado e entregou missões com alma, variedade tática e uma lore que respeita profundamente o universo de Warhammer 40,000. Esqueça aquela sensação genérica de clicar em tudo na tela sem pensar; aqui, cada decisão tomada no mapa de campanha ecoa diretamente nas suas chances de sobrevivência.

Começar a jogatina escolhendo a facção dos orks foi uma aula de design de level e diversão descompromissada, servindo perfeitamente para entender o ritmo frenético da gameplay. Os peles-verdes contam com unidades e construções baratas, permitindo recriar aquela famosa maré verde em poucos minutos de match, ideal para quem só quer avançar esmagando tudo pela frente. Contudo, o jogo pune severamente quem avança de olhos fechados, exigindo o mínimo de estratégia para não ver todo o seu exército derreter em segundos diante de defesas bem posicionadas.
O grande barato da campanha dos orks é como a narrativa abraça a própria estupidez cômica e a brutalidade astuta dos personagens, criando uma dinâmica hilária de traições e disputas por liderança no planeta Kronos. Em uma das missões mais geniais que joguei recentemente, o objetivo principal se transforma em uma corrida maluca contra outra facção rival de orks para ver quem destrói primeiro a base do Adeptus Mechanicus, garantindo o direito de ser o chefe supremo daquela zona.

Essa fase em específico traz uma estrutura que lembra muito um mapa de MOBA, com rotas bem definidas, áreas de selva para emboscadas e pontos elevados onde unidades voadoras como os Stormboyz fazem toda a diferença tática. Ver o progresso do seu rival pela interface do usuário ou fisicamente no horizonte enquanto você tenta gerenciar a economia da sua base é o tipo de pressão psicológica que fazia falta nos jogos de estratégia modernos.
As opções de customização e melhorias de wargear para as tropas lembram bastante a liberdade encontrada no icônico tabletop, permitindo trocar armamentos específicos de esquadrões inteiros para lidar com ameaças pontuais no campo de batalha. Se o inimigo decide apelar com blindados pesados, você precisa adaptar rapidamente o seu arsenal para não perder o controle do endgame daquela missão específica.

A transição para a campanha do Adeptus Mechanicus muda completamente o ritmo da gameplay, trocando a gritaria desordenada dos orks por uma abordagem cirúrgica, tecnológica e focada na supremacia de fogo a longa distância. Enquanto os verdes dependem da quantidade e da força bruta, os servos do Deus-Máquina exigem um gerenciamento milimetricamente calculado de recursos e posicionamento defensivo estratégico.
Essa dualidade entre facções tão distintas prova que os desenvolvedores realmente estudaram o que fez o sucesso dos clássicos do gênero, evitando recriar os erros crassos que mancharam a reputação do infame Dawn of War 3. A otimização rodando no PC demonstrou estabilidade invejável mesmo com centenas de unidades na tela disparando efeitos visuais pesados simultaneamente.

Se você, assim como eu, estava traumatizado com o rumo que a franquia havia tomado na década passada, pode acalmar o coração e tirar o escorpião do bolso para acompanhar os próximos passos deste lançamento. A atenção aos detalhes visuais, a fidelidade ao material original e o respeito ao tempo do fã mostram que a estratégia em tempo real ainda tem lenha para queimar nos computadores.
Falta pouco agora para conferirmos o pacote completo no lançamento oficial previsto para os próximos meses, mas o que foi apresentado até agora já é suficiente para garantir um lugar de destaque nas bibliotecas dos entusiastas de RTS. Ainda não se sabe se o balanceamento do multiplayer vai acompanhar a alta qualidade vista nestas primeiras campanhas. Estou saindo dessa experiência com um otimismo genuíno que há muito tempo não sentia com a Relic Entertainment, torcendo fervorosamente para que o produto final entregue exatamente o que prometeu nestas prévias.




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