O mercado de games passou por um verdadeiro terremoto nos últimos anos, especialmente após a conturbada saída de mentes brilhantes da ZA/UM. Agora, parte desse núcleo criativo veterano resolveu finalmente mostrar ao mundo no que estava trabalhando em segredo, fugindo completamente de rótulos fáceis ou falsas promessas de continuações espirituais. A nova empreitada capitaneada por nomes como Argo Tuulik e Dora Klindžić promete sacudir as estruturas do gênero com uma proposta ousada, visceral e totalmente focada em mecânicas emergentes que prometem redefinir o que esperamos de um título investigativo no PC e nos consoles da nova geração.
A iniciativa está sendo tocada pelo recém-formado estúdio meados do ano Eternal, que decidiu adotar uma abordagem bem fora da caixinha para o anúncio oficial. Em vez de um trailer tradicional perdido em meio a dezenas de anúncios genéricos de grandes eventos, a revelação veio acompanhada de um calhamaço físico de quinhentas páginas chamado meados do ano Eternal Anthology. Essa publicação curiosa funciona tanto como um manifesto sobre as condições de trabalho e a cultura atual da indústria dos videogames quanto como um diário de desenvolvimento detalhado do seu projeto principal.

Dentro desse universo caótico e fascinante, os jogadores assumem o controle de Redrick Roost, um ex-trabalhador de colarinho branco que acaba jogado na contra-parede e assume o cargo de investigador de incêndios. Para piorar a situação e deixar a narrativa ainda mais densa, ele precisa formar uma dupla improvável com uma matemática viciada em opiáceos para desvendar uma onda criminosa de incêndios criminosos. O grande plot twist que move essa teia de conspirações é que todas as pistas parecem apontar diretamente para o irmão de Redrick, que por ironia do destino é o temido chefe de bombeiros da cidade.
O cenário escolhido para essa jornada política com forte pegada de ficção científica é o arquipélago fronteiriço e fracionado da metrópole trinitária de Arta-Tantor. Segundo a própria desenvolvedora, o jogo aposta em um design totalmente voltado para simulação imersiva e física realista, abandonando os mapas estáticos e congelados tão comuns em RPGs tradicionais. A ideia central é transformar o ambiente urbano em um verdadeiro playground reativo onde cada objeto pode ser manipulado, empurrado e, claro, queimado, permitindo que o usuário exerça sua existência física de forma brutal no mundo virtual.

Abandonando as amarras estritamente isométricas que marcaram o passado dos desenvolvedores, o projeto está sendo construído na poderosa Unreal Engine para aproveitar ao máximo os recursos avançados de física e renderização tridimensional com câmera dinâmica. Financeiramente, o estúdio mira em um orçamento de produção de porte duplo-A, inspirando-se no modelo de equipe enxuta adotado por estúdios de sucesso recente como a Sandfall Interactive com seu aguardado Expedition 33. Atualmente, o jogo já entrou na reta final de sua fase de pré-produção, contando inclusive com uma demo tecnológica interna jogável.
Mesmo com toda a equipe tentando colocar um abismo conceitual entre este projeto e o aclamado clássico detetivesco do passado, é inevitável notar certas semelhanças visuais e estruturais. O protagonista Redrick carrega uma semelhança impressionante com o inesquecível Harry Du Bois, enquanto o sistema mental do jogo, batizado de The Coop, funciona de maneira análoga ao famoso Thought Cabinet, povoando a psique do herói com versões dele mesmo em formato de galos que representam seus impulsos mais profundos.

A curadoria de inspirações do estúdio é um verdadeiro banquete para os fãs de narrativas densas, misturando clássicos cult dos computadores como Arcanum: Of Steamworks and Magick Obscura e Planescape: Torment com simuladores imersivos venerados como Vampire: The Masquerade: Bloodlines e Half-Life: Alyx. No departamento de influências televisivas e literárias, aparecem nomes de peso como as séries Fringe e Dark, além das obras visionárias do autor Ted Chiang e do escritor John Steinbeck.
Para quem se interessou pelo pacote completo de revelação, a edição física mais robusta, chamada de Deluxe Firestarter bundle, está sendo comercializada no exterior por cerca de R$ 544 reais, enquanto a versão padrão sai por aproximadamente R$ 379 reais na cotação atual. O alto valor reflete a proposta ambiciosa de entregar não apenas um jogo de peso, mas um verdadeiro manifesto cultural impresso em papel de colecionador.
O mercado de RPGs carece de produções que ousem fugir do arroz com feijão das grandes corporações, e ver mentes tão criativas reunidas novamente é um sopro de esperança para quem valoriza roteiros maduros e mecânicas verdadeiramente interativas. Ainda não se sabe se o estúdio conseguirá entregar toda essa grandiosidade técnica sem cair nas armadilhas de desenvolvimento que costumam assolar produções independentes ambiciosas.



💬 Comentários da Comunidade
Carregando comentários...