Se você já passou algum tempo no universo de EVE, sabe que a franquia é sinônimo de complexidade absurda, política visceral e planilhas de Excel disfarçadas de jogo. Mas a Fenris Creations (ex-CCP Games) resolveu chutar o balde e criar algo diferente: EVE Frontier. Aqui, a pegada muda para a sobrevivência, trocando a gestão macro de impérios por uma experiência mais visceral e imediata, onde o perigo está em cada esquina do espaço profundo.
O grande ponto agora é a acessibilidade. Recentemente, durante o EVE Fanfest, a equipe revelou que está em uma espécie de "side quest" — como eles mesmos chamaram — para colocar o jogo no Steam Deck. A ideia é simples: se o jogo é complexo e experimental, quanto mais formas o jogador tiver de acessá-lo, melhor. A meta é democratizar a experiência, tirando o jogo da dependência exclusiva de um setup de PC robusto.

Para quem curte portáteis, isso é música para os ouvidos. O product manager Scott McCabe admitiu que já está testando o jogo no hardware da Valve, "molhando os pés" para ver o que funciona. O caminho técnico aqui é o Proton, a camada de compatibilidade do Linux. Basicamente, se roda via Proton, roda no Steam Deck, restando apenas ajustar a performance e o consumo de energia para que a bateria não evapore em dez minutos de jogo.
O grande salto, porém, não é técnico, mas de interface. O EVE Online original até roda no Deck, mas é um sofrimento, já que foi feito para teclado e mouse. Já o Frontier está sendo construído com suporte nativo para gamepad e novos controles de direção. Isso muda completamente a dinâmica do jogo, transformando a navegação espacial em algo muito mais intuitivo para quem prefere um controle na mão do que um teclado.

Sæmundur Hermannsson, o diretor do jogo, foi categórico ao dizer que levar o título para o portátil é um "no-brainer", ou seja, algo óbvio. O maior gargalo, curiosamente, não é o motor gráfico ou a gameplay, mas sim o launcher. Sim, aquele programa chato que abre antes do jogo. Alguns arquivos de configuração do launcher estão dando trabalho para rodar no ambiente do Steam Deck, mas a equipe já está debruçada sobre isso.
Outro ponto que me chamou a atenção e que merece destaque é a abordagem contra trapaceiros. Enquanto a maioria dos MMOs usa anti-cheats invasivos que quebram a compatibilidade com o Linux (e consequentemente com o Steam Deck), EVE Frontier está indo por outro caminho. Eles estão criando o que chamam de "física digital". Em vez de um software vigiando seu PC, as regras de trapaça são embutidas na lógica do próprio mundo.
Essa escolha não é por acaso. O objetivo da Fenris é que o jogo seja altamente moddável e, eventualmente, open source. Imagine a comunidade criando melhorias, novas mecânicas e expandindo o universo sem as amarras de um anti-cheat proprietário. Isso coloca o EVE Frontier em um patamar de liberdade que raramente vemos em jogos multiplayer modernos, onde as empresas tentam controlar cada bit do seu sistema operacional.
David Bowman, diretor de desenvolvimento, resumiu a filosofia da equipe: o objetivo é chegar ao maior número de jogadores possível. Para um jogo que se propõe a ser experimental e complexo, abrir as portas para o público de portáteis é uma estratégia inteligente para criar uma base de jogadores mais diversificada e engajada.

Olhando para o cenário atual, onde o Steam Deck provou que conseguimos jogar títulos densos no sofá, faz todo o sentido que um jogo de sobrevivência espacial tente se adaptar. Se eles conseguirem polir a interface de controle e resolver a treta do launcher, teremos um dos títulos mais ambiciosos de 2026 rodando na palma da mão. É aquele tipo de aposta que, se der certo, redefine como consumimos MMOs de nicho.
No fim das contas, o que estamos vendo é a transição de uma mentalidade rígida de "PC Master Race" para algo mais fluido. O suporte ao gamepad e a compatibilidade com Linux mostram que a Fenris Creations entende que a experiência do usuário vem antes de qualquer barreira técnica. Agora é torcer para que essa "missão secundária" seja concluída antes do lançamento oficial.
Meu veredito é que EVE Frontier tem tudo para ser um marco, não só pelo gameplay, mas pela coragem de ser aberto e acessível. Se você gosta de explorar o desconhecido e não tem medo de morrer repetidamente para o vácuo do espaço, fique de olho nesse projeto. O espaço é vasto, mas a vontade de jogá-lo em qualquer lugar parece ser ainda maior.
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