Sabe aquele sentimento de que os RPGs modernos ficaram 'bobos' demais, com tanta mãozinha segurando o jogador que a gente nem sente mais a tensão de uma escolha errada? Pois é, parece que alguém finalmente acordou e decidiu que era hora de voltar às raízes, onde o jogo não tinha pena de você. Nós aqui da redação ficamos de olho no Entropy, um projeto que não quer apenas ser 'mais um' no gênero, mas que busca beber diretamente da fonte dos clássicos que definiram a indústria décadas atrás.
O game é fruto da mente de James Wragg, o mesmo cara que nos entregou Dread Delusion, aquela homenagem primorosa a King's Field e The Elder Scrolls. Mas ó, não se enganem achando que Entropy é apenas uma sequência espiritual ou algo na mesma pegada. Enquanto o projeto anterior era um mergulho na fantasia surrealista, este novo título é uma mistura insana de influências, pegando a estrutura de um JRPG clássico — tipo Final Fantasy 10 ou Lost Odyssey — e injetando isso num mundo pós-apocalíptico visceral e cruel no PC.

O que realmente me chamou a atenção logo de cara foi a coragem de assumir que o Fallout 1 é a grande inspiração aqui. Não estou falando de estética de 50s, mas sim daquela sensação de desolação onde cada encontro pode ser o seu fim. O sistema de combate é tático e pesado, trazendo de volta o conceito de dano locacional, que lembra muito os 'called shots' do primeiro Fallout (antes de virarem o VATS simplificado dos jogos em 3D). Você pode tentar mirar em um membro específico do inimigo, aceitando uma penalidade na precisão para, quem sabe, desarmar um oponente ou destruir um ponto fraco nojento de um mutante.
Mas a pira do Wragg não para por aí, porque ele trouxe para a equação o Mordheim, aquele spinoff de táticas de pequenas unidades de Warhammer que a Games Workshop deixou esquecido no limbo desde 1999. Para quem não conhece, Mordheim era puro suco de customização de mesa, onde você criava seus bonequinhos e decidia cada detalhe do equipamento. O desenvolvedor quis transpor essa liberdade para o digital, criando um sistema onde a customização do personagem é profunda e realmente impacta a forma como você sobrevive ao mundo, fugindo daquela mesmice de 'subir nível e ganhar +1 de força'.

Um ponto que muita gente pode criticar, mas que eu considero um buff enorme para o design, é a escolha dos gráficos low-fi. Ao optar por um visual mais simples e estilizado, a equipe conseguiu implementar uma quantidade absurda de armas únicas e status variados sem precisar gastar meses criando animações complexas em 4K. Se eles estivessem tentando fazer algo com alta fidelidade, provavelmente teriam que dar um nerf na ambição do projeto para caber no orçamento, e ninguém quer um jogo 'seguro' e genérico hoje em dia.
Além disso, o jogo não brinca em serviço quando o assunto é punição. Temos permadeath e um tamanho de grupo considerável para as batalhas táticas, o que transforma cada luta em um jogo de xadrez onde a perda de um membro da equipe dói de verdade. Essa abordagem é muito mais próxima da experiência de jogos de PC da era de ouro do que do estilo 'estou seguro' dos consoles da era PS2, criando uma reatividade no storytelling que faz você sentir que o mundo realmente se importa com as suas cagadas.

Essa trajetória de desenvolvimento parece ter sido um ciclo completo para o estúdio. Durante a criação de Dread Delusion, o desenvolvedor começou a estudar a fundo a história dos jogos de mesa e como eles moldaram os RPGs digitais. O resultado é Entropy, um título que não tem medo de ser complexo e que exige que o jogador realmente pense na estratégia, em vez de apenas esmagar botões até que a barra de vida do inimigo acabe.
Para quem curte essa pegada mais 'raiz' e está cansado de jogos que tratam o player como criança, Entropy chega via Steam em Early Access como uma promessa fortíssima. É aquele tipo de jogo que pode acabar flopando para a massa por ser 'difícil demais', mas que para nós, veteranos que lembramos do gosto de ler manuais de 100 páginas, é um prato cheio. A atmosfera é densa, a melancolia é palpável e a jogabilidade é honesta.

No fim das contas, ver um desenvolvedor indie assumindo que precisa 'voltar à fonte' para inovar é refrescante demais. Em um mercado saturado de clones de Soulslike ou mundos abertos vazios, ter um RPG que prioriza a tática, a customização profunda e a consequência real das ações é um sopro de ar fresco. Se você tem estômago para perder personagens e paciência para aprender sistemas complexos, esse é o seu jogo.
Meu veredito é simples: fiquem de olho. Entropy tem potencial para ser aquele cult clássico que a gente recomenda para todo mundo por anos. É a prova de que a simplicidade visual, quando aliada a uma mecânica densa, consegue entregar muito mais imersão do que qualquer motor gráfico de última geração sem alma.




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